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TEXTO PARA INTERPRETAÇÃO 69 – A REGREÇÃO DA REDASSÃO (Nível Médio)

TEXTO PARA INTERPRETAÇÃO 69 – A REGREÇÃO DA REDASSÃO  (Nível Médio)

A REGREÇÃO DA REDASSÃO

          Semana passada recebi um telefonema de uma senhora que me deixou surpreso. Pedia encarecidamente que ensinasse seu filho a escrever.

– Mas, minha senhora – desculpei-me -, eu não sou professor.

– Eu sei. Por isso mesmo. Os professores não têm conseguido muito.

– A culpa não é deles. A falha é do ensino.

– Pode ser, mas gostaria que o senhor ensinasse o menino. O senhor escreve muito bem.

– Obrigado – agradeci -, mas não acredite muito nisso. Não coloco as vírgulas e nunca sei onde botar os acentos. A senhora precisa ver o trabalho que dou ao revisor.

– Não faz mal – insistiu -, o senhor vem e traz um revisor.

– Não dá, minha senhora – tornei a me desculpar -, eu não tenho o menor jeito com crianças.

– E quem falou em crianças? Meu filho tem 17 anos.

Comentei o fato com um professor, meu amigo, que me respondeu: “Você não deve se assustar, o estudante brasileiro não sabe escrever”. No dia seguinte, ouvi de outro educador: ‘O estudante brasileiro não sabe escrever’. Depois li no jornal as declarações de um diretor da faculdade: ‘O estudante brasileiro escreve muito mal’. Impressionado, saí a procura de outros educadores. Todos me disseram: acredite, o estudante brasileiro não sabe escrever. Passei a observar e notei que já não se escreve mais como antigamente. Ninguém mais faz diário, ninguém escreve em portas de banheiros, em muros, em paredes.

Não tenho visto nem aquelas inscrições, geralmente acompanhadas de um coração, feitas em casca de árvore. Bem, é verdade que não tenho visto nem árvore.

– Quer dizer – disse a um amigo enquanto íamos pela rua – que o estudante brasileiro não sabe escrever? Isto é ótimo para mim. Pelo menos diminui a concorrência e me garante emprego por mais dez anos.

– Engano seu – disse ele. – A continuar assim, dentro de cinco anos você terá que mudar de profissão.

– Por quê? – espantei-me. – Quanto menos gente sabendo escrever, mais chance eu tenho de sobreviver.

– E você sabe por que essa geração não sabe escrever?

– Sei lá – dei com os ombros -, vai ver que é porque não pega direito no lápis.

– Não senhor. Não sabe escrever porque está perdendo o hábito da leitura. E quando o perder completamente, você vai escrever para quem?

Taí um dado novo que eu não havia considerado. Imediatamente pensei quais as utilidades que teria um jornal no futuro: embrulhar carne? Então vou trabalhar num açougue. Serviria para fazer barquinhos, para fazer fogueira nas arquibancadas do Maracanã, para forrar sapato furado ou para quebrar um galho em banheiro de estrada? Imaginei-me com uns textos na mão, correndo pelas ruas para oferecer às pessoas, assim como quem oferece hoje bilhete de loteria:

– Por favor amigo, leia – disse, puxando um cidadão pelo paletó.

– Não, obrigado. Não estou interessado. Nos últimos cinco anos a única coisa que leio é a bula de remédio.

– E a senhorita não quer ler? – perguntei, acompanhando os passos de uma universitária. – A senhorita vai gostar. É um texto muito curioso.

– O senhor só tem escrito? Então não quero. Por que o senhor não grava o texto? Fica mais fácil ouvi-lo no meu gravador.

– E o senhor, não está interessado nuns textos?

– É sobre o quê? Ensina como ganhar dinheiro?

– E o senhor, vai? Leva três e paga um.

– Deixa eu ver o tamanho – pediu ele.

Assustou-se com o tamanho do texto:

– O quê? Tudo isso? O senhor está pensando que sou vagabundo? Que tenho tempo para ler tudo isso? Não dá para resumir tudo em cinco linhas?

( Carlos Eduardo Novaes )

Com base no texto, responda ao que se pede:

  1. No diálogo entre a mãe e o autor do texto, percebe-se uma crítica velada a respeito dos professores no Brasil. Identifique a crítica.
  1. O texto apresenta a causa porque os estudantes brasileiros não sabem escrever. Qual é?
  1. Se os estudantes brasileiros, segundo o autor, não sabem escrever porque não lêem, qual deve ser a estratégia que os professores devem utilizar para reverter essa situação?
  1. Que outras causas podem contribuir para que o estudante brasileiro tenha dificuldades para escrever?
  1. Por que o autor utilizou a grafia errada nas palavras do título do texto?
  1. O autor se valeu dos fonemas e suas representações gráficas, em português, para chamar a atenção do leitor. Algumas palavras, em português, podem ter o seu sentido alterado (ou não) em razão da sua representação gráfica. No caso do título do texto, houve alteração de sentido? Justifique.

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Gabarito:

  1. A mãe procurou uma pessoa que não era professor porque os professores de seu filho não conseguiam ensiná-lo a escrever, o que foi justificado pelo autor que não era culpa deles (dos professores), mas por causa da falha do ensino. Ora, se o ensino é falho (tem defeitos) e é realizado por professores, então a culpa é daquele que provoca essa falha, isto é, dos professores. O ensino em si não é autônomo, mas é o resultado da ação de alguém.
  1. Porque não lêem.
  1. Resposta pessoal.
  1. Resposta pessoal.
  1. Porque naturalmente ele quis chamar a atenção do leitor para o assunto do seu texto: a dificuldade dos estudantes brasileiros de escrever em português.
  1. Não. Se forem pronunciadas, essas mesmas palavras terão o mesmo som: regressão/regreção – redação/redassão. 
 
Comentários

Muito interessante. estou perdendo o hábito de escrever, com copiar e colar do computador.

Excelente texto que mostra a importância da leitura para os indivíduos, principalmente para o educador que tem nas mãos a oportunidade de fazer despertar essa paixão.

Tento convencer meus alunos disso. Resumo enredos. Falo de personagens. Alguns se empolgam e querem saber se virou filme. Sinto pena e raiva da miopia em que a maioria vive. Mas quando resumo obras como Incidente em Antares, A Jangada de Pedra, O Guarani, O Perfume, Grande Sertões: veredas, Crime e Castigo, Ciranda de Pedra, O Alienista, A morte de Ivan Ilitch, ou algum conto do Rubem Fonseca, percebo que a pedra no meio do caminho é essa mediocridade à qual somos submetidos diariamente, essa aparentemente simples falta do hábito da leitura. A democratização da idiotice por meio das músicas, das novelas e o show de horrores da televisão nossa de cada dia. Ninguém fala de livro, dos bons livros, das histórias por trás das palavras. Se fala, ninguém assiste. Nossas políticas sociais ignoram o fato de que a literatura existe, que ela ensina, até mesmo a escrever.

Meu prezado Professor, obrigada pela visita ao nosso site. Quanto ao seu desabafo, queremos lhe dizer que vivemos um período da História Humana muito peculiar. Vivemos uma era onde as informações são muitas e oferecidas com rapidez incrível. Hoje não se tem ou não se quer ter mais tempo para analisar, avaliar, apreciar pois tudo acontece com tremenda velocidade que as coisas que precisam de tempo para serem aprendidas são consideradas difíceis ou sem valor. Infelizmente, ainda não foi encontrada outra maneira de se ensinar a escrever diferente da que conhecemos. Mas ainda acho que nem tudo está perdido. Só temos que procurar estratégias que despertem nossos alunos para a necessidade de escrever bem. Não tente convencer seus alunos: lance desafios. A princípio, desafios de fácil elucidação. Depois vá aumentando as dificuldades. Existem muitos textos que se prestam para esse tipo de trabalho, principalmente os humorísticos. Também algumas tirinhas publicadas em jornais podem ser utilizadas para a partir delas se escrever algo. Tente! Não desista! Se os professores desaparecerem das escolas, qual será o futuro dessa geração?

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